Fabio Saba
Segue aqui uma reflexão sobre as competências profissionais valorizadas atualmente. O que vale mais o conteúdo ou a forma? Será que dá para separá-las?
Boa leitura…

Durante minha vida profissional, eu topei com algumas figuras cujo sucesso surpreende muita gente.
Figuras sem um vistoso currículo acadêmico, sem um grande diferencial técnico, sem muito networking ou Marketing pessoal.
Figuras como o Raul.
Eu conheço o Raul desde os tempos da Faculdade. Na época, nós tínhamos um colega de classe, o Pena, que era um gênio. Na hora de fazer um trabalho em grupo, todos nós queríamos cair no grupo do Pena, porque o Pena fazia tudo sozinho. Ele escolhia o tema, pesquisava os livros, redigia muito bem e ainda desenhava a capa do trabalho - com tinta nanquim. Já o Raul nem dava palpite. Ficava ali num canto, dizendo que o seu papel no grupo era um só, apoiar o Pena. Qualquer coisa que o Pena precisasse, o Raul já estava providenciando, antes que o Pena concluísse a frase. Deu no que deu.
O Pena se formou em primeiro lugar na nossa turma. E o resto de nós passou meio na carona do Pena - que, além de nos dar uma colher de chá nos trabalhos, ainda permitia que a gente colasse dele nas provas.
No dia da formatura, o diretor da escola chamou o Pena de “paradigma do estudante que enobrece esta instituição de ensino”. E o Raul ali, na terceira fila, só aplaudindo. Dez anos depois, o Pena era a estrela da área de planejamento de uma multinacional. Brilhante como sempre, ele fazia admiráveis projeções estratégicas de cinco e dez anos. E quem era o chefe do Pena?
O Raul. E como é que o Raul tinha conseguido chegar àquela posição? Ninguém na empresa sabia explicar direito. O Raul vivia repetindo que tinha subordinados melhores do que ele, e ninguém ali parecia discordar de tal afirmação. Além disso, o Raul continuava a fazer o que fazia na escola, ele apoiava. Alguém tinha um problema? Era só falar com o Raul que o Raul dava um jeito. Meu último contato com o Raul foi há um ano. Ele havia sido transferido para Miami, onde fica a sede da empresa. Quando conversou comigo, o Raul disse que havia ficado surpreso com o convite. Porque, ali na matriz, o mais burrinho já tinha sido astronauta. E eu perguntei ao Raul qual era a função dele. Pergunta inócua, porque eu já sabia a resposta. O Raul apoiava. Direcionava daqui, facilitava dali, essas coisas que, na teoria ninguém precisaria mandar um brasileiro até Miami para fazer.
Foi quando, num evento em São Paulo, eu conheci o vice-presidente de recursos humanos da empresa do Raul.
E ele me contou que o Raul tinha uma habilidade de um valor inestimável: ele entendia de gente. Entendia tanto que não se preocupava em ficar na sombra dos próprios subordinados para fazer com que eles se sentissem melhor, e fossem mais produtivos. E, para me explicar o Raul, o vice-presidente citou Samuel Butler,que eu não sei ao certo quem foi, mas que tem uma frase ótima: “Qualquer tolo pode pintar um quadro. Mas só um gênio consegue vendê-lo”, costumava dizer Butler. Essa era a habilidade aparentemente simples que o Raul tinha, de facilitar as relações entre as pessoas. Perto do Raul, todo comprador normal se sentia um expert, e todo pintor comum, um gênio.
Max Gehringer, Revista EXAME - 15/09/04
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Hoje se separa a chamada inteligência intelectual da social. Mas elas são faces de uma mesma moeda. Quem tem uma alta competência intelectual tem um alto potencial de também ser destaque em relações sociais, porque é justamente uma certa sutileza intelectual que forma a base das relações sociais consideradas de sucesso - o “entender de gente”. Provavelmente se o Pena tivesse tido uma atenção especial da escola para sua sociabilização, seria o Presidente da Multinacional. Quanto capital humano se perde com nossa educação repleta de mitos!
Duas coisas Giovanni,
1- A política escolar em geral precisa ser inclusiva na essência e principalmente na prática e não somente no discurso. Logo, poderão se beneficiar dela o Raul e o Pena.
2- Também entendemos que tanto o conteúdo quanto a forma estão totalmente integrados. Será que as pessoas ainda não entendem isso?
Abraço e obrigado pela participação
Por isso, uma ação educativa, como uma palestra, uma aula, um blog ou site, devem levar em conta forma e conteúdo, mas vendo-os como um único processo dinâmico. Erra quem investe só em razão ou só emoção. O mesmo quem investe em sua carreira só em formação social ou só formação intelectual.
Adorei o Artigo….
A questão da competência, no presente caso, tem tudo a ver com o seu trabalho com dedecação, empenho e solidariedade. Agir com estas qualidades localmente o levarão para a observação e investimento globalmente. Parabéns, excelente texto para ensar.
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